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Handmade Ownever luxury box crafted by Portuguese artisans

Os nomes dentro da caixa feita à mão

A caixa de uma mala Ownever começa com uma artista do azulejo, uma das últimas artesãs portuguesas de caixas de luxo e uma mulher chamada Rosa

 

A pessoa mais importante da nossa nova caixa talvez seja uma mulher que nunca a viu. Chama-se Rosa. Há quase quatro décadas, quando Estrela Almeida tinha catorze anos, Rosa trabalhava ao seu lado e ensinou-a a fazer uma caixa à mão. Estrela ainda se lembra do seu nome, e é assim que certas pessoas permanecem no mundo: não necessariamente através de monumentos ou biografias, mas através de um gesto repetido tantas vezes que acaba por se tornar parte das mãos de outra pessoa.


Hoje, Estrela Almeida faz as caixas que guardam as malas Ownever. Mede e corta cada peça, reveste-a, vira as margens e trabalha os cantos até tudo parecer quase inevitável. Uma caixa bem feita não anuncia a dificuldade da sua construção; limita-se a assentar direita e a fechar como deve ser. A sua serenidade é o resultado de centenas de decisões que quem a abre nunca terá de considerar.

 

 

Uma única caixa pode exigir até quatro horas de trabalho a Estrela; quantas faria uma máquina nesse tempo? Tanto quanto conseguimos apurar, é a última pessoa em Portugal que ainda se dedica a fazer caixas de luxo inteiramente à mão. A expressão «a última» tende a conferir uma espécie de romantismo instantâneo, mas há pouco de romântico em assistir ao fim iminente de um saber útil. Significa apenas que, se Estrela parar, uma linha que começou em Rosa e passou por uma rapariga de catorze anos poderá terminar com ela.

 

Estrela Almeida crafting an Ownever box by hand

 

Por vezes, há agora uma menina de dez anos na oficina de Estrela. A filha cresceu entre placas, papéis e ferramentas e começou a fazer as suas próprias caixas. Se algum dia quererá fazer disto a sua profissão, é outra questão, e uma decisão inteiramente sua. Ainda assim, há algo discretamente comovente no facto de o conhecimento já ter atravessado a mesa de trabalho mais uma vez. Observou com atenção suficiente para saber onde o material deve dobrar e onde não pode fazê-lo.

Foi assim, em parte, que a caixa Ownever se tornou uma história sobre três gerações de mulheres.

No interior da tampa encontra-se uma imagem de Salomé Vilar. Representa uma avó, uma mãe e uma neta, desenhadas na linguagem visual da pintura portuguesa de azulejo. A inspiração partiu de um painel histórico de azulejos do Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, mas a composição é de Salomé. Criou-a para a Ownever e pintou-a primeiro num azulejo português.

Salomé nem sempre tencionou ser artista. Sentia-se atraída pela ilustração científica, uma área em que o desenho é uma forma de atenção antes de ser uma forma de expressão. A linha só pode ser bela depois de ser rigorosa. Algures nesse olhar paciente, encontrou o caminho até ao azulejo, um suporte tão familiar em Portugal que, por vezes, vemos a ideia dele antes de vermos a própria coisa.

 

Portuguese artist Salomé Vilar creating the original artwork for the Ownever box

 

Sabemos o que um azulejo supostamente significa: significa Portugal, história, azul e branco, a parede de uma igreja, uma estação de comboios, uma fachada fotografada por alguém de passagem. A sua beleza tornou-o omnipresente e essa omnipresença tornou-o estranhamente fácil de ignorar. O que nos interessou em Salomé foi a sua recusa em tratar o azulejo como uma relíquia. Nas suas mãos, era simplesmente uma superfície onde uma mulher contemporânea podia desenhar outra ideia contemporânea.

Carlota Batalha, que nos deu a conhecer o trabalho de Salomé e assumiu a direção criativa do projeto, ajudou a unir estes fios dispersos. Tínhamos começado com um desconforto prático: as malas Ownever são concebidas para continuar a ser usadas, para envelhecer e para serem reparadas, enquanto a caixa que as envolvia continuava a pertencer à coreografia descartável do retalho. A embalagem de luxo pode ser mais pesada, mais suave e mais cerimoniosa do que uma embalagem comum, mas grande parte dela conhece o mesmo destino. Encena importância durante alguns minutos e depois transforma-se em desperdício.

 

 

Queríamos fazer uma caixa que merecesse permanecer, embora a utilidade, por si só, não fosse suficiente. Já existem muitas caixas bonitas no mundo, mas queríamos que esta dissesse a verdade sobre o objeto que contém: uma coisa bela nunca é obra de uma marca abstrata. É o resultado de pessoas concretas, em lugares concretos, que sabem fazer coisas que a maioria de nós não sabe.

Portugal tem uma relação difícil com este facto. Orgulhamo-nos do nosso saber-fazer no coletivo e somos curiosamente desatentos aos artesãos no singular. Elogiamos o azulejo, o bordado, a tecelagem e o trabalho em pele, muitas vezes sem sermos capazes de nomear uma pessoa viva que pratique qualquer uma dessas artes. A linguagem do património faz com que tudo pareça pertencer, em segurança, à comunidade, como se o conhecimento fosse do país da mesma maneira que uma linha de costa. Na realidade, vive precariamente em corpos individuais. Reside na visão, na memória muscular, no discernimento e no hábito. Quando a pessoa desaparece, a nação não consegue recuperar esse conhecimento de um arquivo; talvez consiga apenas mostrá-lo num museu.

Este anonimato também tem sido conveniente. Durante décadas, mãos portuguesas fizeram objetos excecionais para algumas das casas de luxo mais reconhecidas do mundo. Fomos a oficina por detrás da mitologia de outro país. A peça acabada sai de Portugal com o nome da marca que a encomendou, enquanto as pessoas que a cortaram, coseram, pintaram ou montaram continuam a ser conhecidas apenas dentro da fábrica ou da terra onde vivem. Celebramos a exportação e abdicamos da autoria.

Não há vergonha em produzir para outros; o trabalho pode ser excelente e a produção internacional sustentou a vida de muitos portugueses. A perda acontece quando começamos a acreditar que fazer tem, de algum modo, menos importância cultural do que desenhar, dar um nome ou vender. Isso permite que a perícia seja tratada como um custo a reduzir, em vez de um valor a cultivar. Um país pode tornar-se muito bom a produzir luxo e, ainda assim, não conseguir construir uma linguagem de luxo em torno das suas próprias pessoas.

Na Ownever, temos sentido repetidamente esta contradição. Portugal está cheio de capacidades extraordinárias, mas encontrá-las pode assemelhar-se a uma forma de história oral. Uma pessoa sugere um nome, que leva a uma aldeia, onde alguém se lembra de uma mulher que talvez ainda saiba fazer o trabalho como antigamente. Raramente existe um mapa claro; os melhores mestres podem não ter site, arquivo ou aprendiz. O seu conhecimento é imenso; a sua visibilidade pública é quase inexistente.

Quando a cultura dominante finalmente presta atenção, a história já adquiriu muitas vezes a tristeza delicada de um obituário. Fotografamos o artesão numa oficina antiga. Descrevemos as ferramentas, a paciência e a dedicação. Usamos a expressão «uma arte em vias de extinção», que é verdadeira, mas confortavelmente vaga quanto às razões do desaparecimento. Os saberes não desaparecem por falta de admiração; desaparecem por falta de trabalho.

É por isso que desconfiamos da ideia de que a Ownever está a «salvar» o artesanato português. A expressão atribui à marca o papel heróico e transforma a artesã numa sobrevivente agradecida da sua própria história. Estrela não precisa de nós para que o seu trabalho tenha significado, e Salomé não precisa de autorização para tornar o azulejo contemporâneo. O que uma marca pode fazer é menos dramático e mais útil. Pode encomendar o trabalho, respeitar as horas que exige, pagar em conformidade e colocar o nome de quem o fez junto do objeto acabado.

A distinção é importante. O artesanato não sobrevive por ser elogiado com eloquência. Sobrevive quando continua a fazer parte da vida económica e cultural. Uma técnica precisa de novos objetos para criar e de novos problemas para resolver; caso contrário, deixa de ser um ofício e passa a ser uma demonstração.

Dentro da caixa Ownever, as três mulheres de Salomé estão rodeadas pelo trabalho das mãos de Estrela. A imagem fala de transmissão; a própria caixa é a prova dela. Rosa também está presente, embora não tenha pintado nem construído qualquer parte da caixa. Está nas dobras que Estrela sabe fazer porque alguém lhas ensinou. A filha de Estrela está presente noutro tempo verbal, como possibilidade e não como promessa.

 

Ownever box featuring original Portuguese azulejo artwork and handcrafted interior

 

Só depois de encontrarmos estas mulheres aparece a mala.

Gostamos desta sequência porque inverte a ordem habitual do luxo, em que o objeto se torna visível e o trabalho recua. Aqui, a caixa apresenta as mãos antes de revelar o produto. Pede a quem a recebe que se detenha por um momento no conhecimento que envolve a mala, e não apenas na mala em si.

O que acontece à caixa depois disso não nos cabe decidir. Pode guardar cartas, fotografias, jóias, recibos que pareceram importantes na altura ou as pequenas coisas privadas que se acumulam sem lugar certo. Esperamos que a sua proprietária lhe encontre uma utilidade porque Estrela já lhe deu tanto do seu próprio tempo. Um objeto feito com tempo tem uma maneira particular de pedir tempo em troca.

 

Original Portuguese tile artwork created by artist Salomé Vilar for the Ownever box

 

As três gerações que Salomé pintou destinavam-se a evocar a transmissão de uma peça Ownever, mas, ao criar a embalagem, começámos a ver com maior clareza um outro tipo de herança. Um objeto só pode ser passado de geração em geração depois de alguém ter preservado o conhecimento necessário para o fazer. Tendemos a valorizar a primeira herança porque podemos segurá-la nas mãos. A segunda perde-se mais facilmente porque circula invisivelmente entre pessoas.

Talvez seja isto que um país deve aos seus artesãos: não a homenagem melancólica de os registar no fim, mas a possibilidade de continuarem a ser necessários enquanto estão entre nós. Portugal não precisa de amar o passado mais do que já ama. Precisa de sentir mais curiosidade pelas pessoas que transportam esse passado para o presente, de aprender os seus nomes e, sempre que possível, de dar às suas mãos algo novo para fazer.

 

Ownever box featuring original Portuguese azulejo artwork and handcrafted interior

 

A nossa caixa leva quatro desses nomes: Salomé, Estrela, Carlota e Rosa. Uma concebeu o seu universo visual, outra deu-lhe forma física, outra reuniu a colaboração e outra transmitiu um saber muito antes de a Ownever existir.

 

A caixa foi criada para guardar uma mala.

O que guarda, no fim, é uma linha que as une.

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